Lilypie Fourth Birthday tickers

17 novembro 2008

Avô Tino

Só agora parece que consigo escrever sobre o assunto.
Decerto que nestas palavras nada vai descrever o que eu sinto e senti! (Nunca fui muito boa a escrever!)
No dia a seguir ao P. ter ido ver o meu avô Tino, ele ainda passou a noite, da mesma forma, sem falar, comer, expressar qualquer sinal que nos fizesse sentir que estava connosco.
No entanto, nunca desisti, estava sempre lá com ele. Sempre sozinha, pois aproveitava quando a minha mãe e a minha avó se iam embora para poder estar a sós com o grande amigo da minha vida.
Sempre lhe dei miminhos, sempre lhe dei a mão e lhe fiz festas. Massajava os bracinhos e as pernas já tão magras, dava beijos atrás de beijos, falava baixinho ao ouvido, amei até ao fim...
Nesse dia, levei uma fotografia da Marta e escrevi uma mensagem dela para o bisavô. Era uma mensagem de despedida que certamente transmitia todo o amor que ela sentiu por ele (viviam um para o outro).
Na fotografia via-se uma Marta super sorridente a brincar como sempre estava quando estava perto do avô Tino. Na fotografia dizia o quanto a M gostava dele e o quanto agradecia o facto de ele ter passado horas e horas com ela a ensiná-la a andar, a andar de bicicleta, as cumplicidades do dia-a-dia,...Enfim, coisas que não se conseguem nunca agradecer.
Depois de muitos mimos e sussurros ao ouvido a dizer-lhe o quanto o amava e que podia partir em paz, deixei-lhe a foto debaixo da almofada e fui-me embora.
Esse dia, era domingo.
Na 2.ª feira, perto das 11 horas, a minha mãe liga a contar que o avô Tino tinha partido.
Arranjei calma, concentrei-me e conduzi os 50km até casa.
Os dois dias seguintes foram muito dificeis.
A espera para levantar o corpo do hospital, os familiares (poucos) a chegarem de véspera, os vizinhos e amigos do avô incansáveis, a noite mais longa de toda a minha vida, o pedir à minha sogra para ir ao Hospital buscar a foto da M, mais familiares a chegarem, mais amigos do avô e a hora...
A hora do funeral foi esgotante, estávamos de rastos (física e emocionalmente)...
Do que me lembro? Da terra a bater no caixão e eu a afastar-me para longe. De ver o P juntamente com o meu primo a chorarem que nem meninos pequenos (isto emocionou-me muito!). Um amigo de infância do meu avô estar presente no funeral. Da irmã mais velha do meu avô ter de presenciar mais um irmão a morrer. E claro, a apatia da minha avó que perdeu o companheiro de vida, o pilar da sua estrutura e que não conseguia reagir.
Terminado o funeral, recompus-me e fui a pé buscar a Martinha. Comigo foi o P e os meus dois primos.
Ela ainda não sabia de nada. Apenas a Educadora e as Auxiliares sabiam o que se passava, pois desde que o avô começou a ser internado, informei para caso houvesse alguma alteração no comportamento da M., para estarem atentas a qualquer sinal.
Essa noite foi angustiante, apesar do cansaço não conseguia dormir.
Estava triste, muito triste mesmo.
Volvidos quase dois meses, interrogo-me o porquê de tudo isto e o porquê de uma pessoa ter de sofrer tanto.
Volvidos quase dois meses, ainda não fui ao cemitério apesar da insistência dos familiares para que ajudasse a escrever uma frase para um adorno para a campa e para ver a própria campa. Não fui!Só vou quando me sentir capaz. Em vida fiz tudo o que me foi possível, agora prefiro pensar que ele vela por nós e que está sempre perto de mim. Ainda não senti necessidade de ir ao cemitério.
Saudades?São muitas, cada vez mais.Mas tenho de pensar que ele me protege e que um dia nos veremos num sítio lindo e que seremos felizes.
Beijinhos pequeninos

Nota: Parece que o que estava a impedir-me de voltar a escrever já está ultrapassado. A ver vamos...

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